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Coisas de Enfermagem
Disputa de poder
Alguém já ouviu falar de “abordagem multidisciplinar no tratamento do paciente”? É mais ou menos assim: cada membro da equipe de saúde tem um papel ou função terapêutica no tratamento do paciente, que deixa de ser responsabilidade “apenas” do médico, e passa a ser responsabilidade da equipe. Nesta abordagem, as açõe s de todos os membros da equipe são vistas como parte importante do tratamento, e não apenas os remédios administrados. Quem sai ganhando, obviamente, é o paciente, que aliás é tratado como "cliente". A mudança não é apenas de nomenclatura.
A base da abordagem multidisciplinar é a comunicação entre os membros da equipe. O plano terapêutico de cada membro (por exemplo, os cuidados de Enfermagem, a prescrição de remédios) não deveria ser pensado independentemente, mas como parte de um trabalho de equipe, no qual um sabe o que o outro está fazendo. A comunicação não se restringe a esse “planejamento pensando na equipe”; cada membro comunica constantemente o estado do cliente a outro membro, especialmente alguma alteração significativa, tanto por via escrita – no prontuário – quanto oralmente. Entre outras coisas, essa postura comunicativa evita que o cliente, já bastante debilitado emocionalmente pela doença e pela internação em si, tenha que responder várias vezes às mesmas perguntas, por membros diferentes da equipe.
Na verdade, a tal abordagem multidisciplinar é muito de bom senso na prática, algo de se esperar dos profissionais de saúde. Pois bem, acabo de viver uma experiência que ilustra bem a quantas anda a multidisciplinaridade nos relacionamentos entre esses profissionais.
Na quinta-feira assumi a assistência de Enfermagem de uma cliente de 08 anos de idade com Celulite na panturrilha esquerda. Em termos simples, a celulite é uma inflamação localizada, dolorosa, em geral resultado de uma infecção em outro local do corpo que migra pra uma região e invade um tecido, especialmente pele e "adjacências". Quando faz o exame físico, o examinador procura uma porta de entrada – uma feridinha, por exemplo. Foi o que fiz. De cara, encontrei umas feridas com cascas bem grossas (aliás, crostas) na cabeça da minha cliente. Contei 15 lesões. Era só passar os dedos pra sentia as tais feridas.
Então, tão logo terminei os meus cuidados, fui atrás da médica responsável pela criança, a fim de comunicar as tais crostas. Eram 10:45 da manhã. Subi e desci o hospital atrás dela, e nada. Pelo visto, já tinha ido embora. Bom, eu não ia estar no hospital no dia seguinte. Meio-dia, no fim da aula prática, fui "passar o plantão". Comuniquei os achados para a Enfermeira de plantão (que também não tinha plantão no hospital no outro dia) e achei por bem deixar um bilhete para a Dr.ª, no prontuário da garotinha:
“Favor comunicar à Dr.ª M.
Cara Dr.ª, encontrei algumas lesões em crosta na cabeça da paciente, especialmente na região parietal. Grata”
Rapaz, no outro dia, quando a tal Dr.ª encontrou o bilhete, foi um rebuliço. Ela reclamou até para a diretoria, se dizendo “ofendida, desrespeitada e atropelada em sua prática”, e etc. e tal. Que "esse tipo de ingerência" era um absurdo, e coisas semelhantes. Os detalhes eu não sei, por que não estava lá. Só fiquei sabendo do bafafá na segunda, quando retornamos para a aula prática.
Me surpreende que uma pediatra com tantos diplomas e tantos anos de prática tenha se ofendido com o bilhete de uma acadêmica “orelha” como eu. Me surpreende a interpretação que ela deu para a minha tentativa de manter a comunicação. Mas o que mais surpreende mesmo é que, em 5 dias de internação, ninguém tivesse passado a mão na cabeça da garotinha e percebido aquele monte de crostas, um foco primário de infecção.
Independente do episódio, não vou deixar de tentar comunicar os meus “achados anormais”. O que o outro membro da equipe vai fazer com a informação não é responsabilidade minha.
Mas não deixa de ser lamentável.
Escrito por Fah às 00:35
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Estudo na madrugada
Madrugada de quarta para quinta, 01:30 da manhã... as meninas preparando os seus respectivos estudos de caso, e eu dando uma força.
Vai fazer Enfermagem, vai... tava pensando que é moleza, é??? Só para os desavisados, varar a noite estudando é ROTINA.

Escrito por Fah às 01:58
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Tem horas...
Tem horas que falta pouco, muito pouco pra chutar o pau da barraca. Por exemplo, agora. São 11:30 da noite. Eu tow cansada. Não, tow exausta. E tb pagando um belo preço por ter deixado tudo pra cima da hora.
Vou passar a noite acordada, comprometendo a qualidade do meu trabalho (e mandando pras cucuias minha noite de sono), com uma defesa de caso clínico amanhã cedinho, com um monte de alunos e professores na banca, pra me encher de perguntas (do tipo até qual era o comprimento da unha do meu paciente), quase desesperando por me sentir tão pouco preparada.
Deus, eu realmente estou precisando como sempre de muita misericórdia tua.
Em tudo dai graças. Tow agradecida por que o Emerson, um grande amigo da sala e um grande irmão na fé, tá aqui pra enfrentar essa noite quase sombria comigo.
Escrito por Fah às 23:36
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Enquanto isso, na Pediatria...
Imagine um lugar cheio de crianças, uma boa parte doente, o restante muito doente, onde em nenhum minuto falta choro, e de todo tipo: de raiva, de fome, de dengo, agudo, fino, fraco, à plenos pulmões...
Pensou? Acrescente um monte de berços no corredor, e pra cada criança, uma mãe cansada, e você tem uma boa idéia do que é o Pronto-Socorro Infantil da Zona Oeste, onde estou tendo aulas práticas. A loucura não é o lugar. A loucura é eu gostar de ir pra lá, é estar esperando ansiosamente pela próxima aula, pra lidar com esses pequenos. É uma sensação de boa ansiedade. Meu primeiro paciente infantil.
Escrito por Fah às 01:14
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Crise
Você já passou por uma crise? Talvez se encontre em uma? Ou quem sabe lembra de alguém que parece viver em crise... sem falar das empresas que não sobrevivem à crise, etc. etc.
Apesar de muito usada, nem sempre é fácil definir essa palavra. Vou tratar aqui da crise do ponto de vista... psicológico. Crise é um estado de desequilíbrio que acomete um indivíduo ou uma família quando enfrentam um determinado evento sem ter os mecanismos de manejo adequados, somado com a percepção que aquele indivíduo ou família tem deste evento. Estes três fatores interagem (o evento, o mecanismo de manejo e a percepção), e pelo menos um deles é inadequado, determinando a crise – que aliás, é auto-limitada; dura no máx. 6 semanas; mais do que isso, se instalou uma doença. Sim, crise não é doença.
Vou dar 2 exemplos. O primeiro é o da família que perde a casa em uma enchente. Neste caso, o evento é a enchente. A percepção é o sentimento de perda e de luto. Os mecanismos de manejo incluem o enfrentamento desta perda e também a adaptação (por ex., ter onde morar [parentes?], etc.). É bem fácil perceber a origem da crise. Mas o que dizer do João, que ganhou uma super promoção e entrou em crise? Por que ele, depois de tanta espera, ia passar por isso? O evento em si não justificaria a crise, a princípio.
Mas se o João pensa nessa promoção a partir da mudança de status que esta acarreta (percepção) e se não se sente preparado para lidar com tal mudança (mecanismo de manejo), então a promoção pode sim disparar uma crise no João. Portanto, qualquer evento, mesmo os naturais (o nascimento de um filho, por ex.), poderia disparar uma crise – e também o evento que causa crise num indivíduo pode não fazê-lo em outro.
Independente do evento, qualquer pessoa sai de uma crise com um de três resultados: com a mesma capacidade de enfrentamento, com uma capacidade menor ou com um nível superior e mais saudável do que antes. Sim, as crises servem pra nos deixar mais fortes.
A pior maneira de lidar com uma crise é reprimir os eventos e emoções envolvidos – a ansiedade, o desmoronamento, o aumento de tensão, a culpa, o medo... Pode até ser que quem bloqueia esses sentimentos saia inteiro da crise; por outro lado, perdeu uma boa chance de crescer.
Existem outras possibilidades para enfrentá-la. Aqui vão algumas sugestões:
· Identifique o evento que disparou a crise;
· Identifique que recursos você tem para lidar com a situação (amigos, grupos de apoio, atividades comunitárias, etc.);
· Busque ajuda (de amigos, parentes, e até ajuda profissional);
· Converse com alguém sobre seus sentimentos;
· Não procure um culpado.
Bom, este texto não é definitivo sobre o assunto. Serve apenas para uma reflexão inicial. No entanto, se você está em crise ou conhece alguém em tal situação, não deixe essa oportunidade de crescimento pessoal passar. Busque e ofereça ajuda.
Pra quem quiser saber mais, recomendo o capítulo 24 do Livro “Fundamentos de Enfermagem Psiquiátrica”, da Taylor.
Escrito por Fah às 20:29
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